Memorial Vila Aurora: Arte, Cultura e Patrimônio

A avenida Lions Internacional não é apenas um ponto de encontro da burguesia de Rondonópolis, mas, também, serve de endereço para o espaço público Memorial Vila Aurora, local de perpetuação da memória dos cidadãos. O cemitério funciona como um “museu a céu aberto” e reflete os valores estéticos, culturais, simbólicos, religiosos e as suas relações com a morte e a vida através dos túmulos, esculturas, vasos, flores, fotografias.

O infortúnio de perder alguém especial transforma o mundo em um espaço pobre, deserto, vazio e insípido. Como forma de homenagear a memória e de elaborar o luto, a pessoa começa a decorar o túmulo ou a gaveta funerária. A decoração evidencia os processos de subjetivação da ausência. A capacidade criativa revela que o silêncio cemiterial oferece recursos existenciais para expurgar o desamparo.

Alguns túmulos são cobertos de azulejos outros são apenas blocos de cimentos. Também há os jazigos que funcionam como pequenas capelas. Em uma rápida visita ao cemitério da Vila Aurora, é possível verificar os túmulos que são preservados, os que foram abandonados, os que são religiosos e as suas diferenças de classes sociais.

Há um túmulo cercado por uma grade verde e por arbustos com flores vermelhas. Dentro, há 10 coqueiros grandes. O espaço é todo coberto por esses coqueiros e arbustos. A dor torna-se relativizada ao elaborar um ambiente de harmonia e paz para acolher o morto. Segundo a Maria Elizia Borges (2011), essa prática de usar vegetação para decorar túmulos é comum em cemitérios evangélicos.

Algumas esculturas fazem parte do acervo do Memorial, desde figuras do Cristianismo aos seres alados assexuados. Os anjos encontram-se em posição de oração, como se estivessem a velar pelo espírito e a guiá-lo a outro mundo. Uma escultura de Jesus despertou a minha atenção: ele está curvado e com a cabeça baixa, posição de oração ou tristeza. É a representação da desolação de perder a pessoa amada. Ao passo que a família se conforta com a crença de que Jesus abençoa, a escultura também desvela que a saudade deixou um silêncio até no âmago de Cristo.

O uso das cores também retrata a necessidade de suavizar a angústia da morte. A cor é um dos elementos que geram o bem-estar. As cores acalmam, afagam, produz sensações e elaboram um ambiente que talvez seja de evocação de compreensão do luto. As cores estão presentes nas pinturas dos túmulos, dos jazigos e nas flores que são, com muita frequência, artificiais. As flores artificiais são usadas para presentear o familiar e como forma de representar a memória: eternamente bela e colorida.

Encontram-se objetos devocionais também nas gavetas funerárias. As gavetas funerárias, símbolo da improvisação e da superlotação do Memorial Vila Aurora, oferece um espaço que incita a espontaneidade do artista anônimo. Esse espaço de tamanho padrão é o “pequeno altar” ou “vitrine” em que são expostas uma variedade de artefatos.

Segundo Borges (2008) os parentes-montadores fazem agrupamentos espontâneos de alguns artefatos e possuem o objetivo de materializar o espaço e transformá-lo em um local sagrado. Os parentes-montadores das gavetas funerárias tornam-se cenógrafos, pintores, artesões, com o propósito de embelezar o recinto. Essa ação criativa, sensível e imaginativa contribui para o processo de elaboração do luto e de viver com a perda. O diálogo do simbólico com o emotivo de um local acolhedor e intimista é perceptível ao verificarmos os toques particulares de cada gaveta.

Estar localizada em uma avenida de boemia, manifesta, a ambiguidade existente na cidade. Uma avenida que ignora a morte a favor dos prazeres, em contrapartida que é local de velórios e enterros. O cemitério também demonstra uma sociedade secularizada que se encontra religiosa perante a morte.

O Memorial Vila Aurora constrói identidades e subjetividades que funciona como significante da sociedade diante da materialização do maior enigma da humanidade: a morte. A arte funerária carrega sentimentos de saudade, dor, amor e evoca a eternidade da devoção. A institucionalização da memória é a nossa referência de civilidade e de testemunho do passado e do contemporâneo refletidos na cultura rondonopolitana. O Memorial Vila Aurora é, por excelência, um patrimônio histórico e cultural de Rondonópolis.

Referências Bibliográficas

BORGES, Maria Elizia. IMAGENS DA MORTE: monumentos funerários e análise dos historiadores da arte. XXVI Simpósio Nacional de História, ANPUH. São Paulo: USP, 2011.

__________. Olhar e contraolhar as narrativas da estética popular, da memória e do afeto nas gavetas funerárias no Brasil. ANPAP, 2008.

ELUSTA, Halima Alves de Lima. VISITA AO MUSEU DE PEDRA: O Cemitério da Saudade de Campinas – SP. 2008. 164 f. Dissertação (Mestrado em Cultura Visual) – Faculdade de Artes Visuais, Universidade Federal de Goiás, Goiânia. 2008.

MENDES, Cibele de Mattos. Práticas e representações artísticas cemiteriais do Convento de São Francisco e Venerável Ordem Terceira do Carmo: Salvador (1850 – 1920). 2007. 336 f. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Escola de Belas Artes, Universidade Federal da Bahia, Salvador. 2007.

SILVA, Eduardo. O Cemitério de Santa Cruz como patrimônio cultural. 2010. 118 f. Dissertação (Mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade) – Universidade Da Região De Joinville, Joinville. 2010.

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Algumas fotos do Memorial Vila Aurora:

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